domingo, 26 de setembro de 2010

Futebol Elegante


Uma questão de bom gosto. Este F.C. Porto é um guarda incorruptível do futebol elegante, refinado, seguidor das mais elementares regras de etiqueta. Junta poesia cuidada à ambição dos momentos de ataque, seja num drible, numa triangulação, num pontapé de primeira. Vence com sofisticação e, por isso, convence. O Olhanense que o diga.

É uma imagem trabalhada ao pormenor, à flor da relva. Não há um passe fora do sítio, deslocado, atrapalhado. Os adereços são harmoniosos, da baliza ao ataque. Mesmo Nicolás Otamendi, em estreia absoluta, percebeu bem a nova realidade que o rodeia.

O internacional argentino apresentou-se devidamente adaptado e correspondeu com um golo simples. Simples como devem ser as mais belas situações da vida. Depois ainda houve mais um golo, anotado por Hulk, mas esse já conhece por dentro e por fora os segredos da formosura.

2-0, seis triunfos consecutivos na Liga 2010/11, liderança plena de ostentação.

Ter boas ideias e a coragem de praticá-las

Os sintomas são evidentes, não enganam. Há um corte radical com o estilo do passado recente. Este dragão deixou a fast food e viciou-se na haute cuisine. Não gosta da vulgaridade. Prefere um argumento sustentado e enriquecido à mediocridade de um blockbuster de Verão.

Dá-se a estes luxos porque pode e sabe. João Moutinho sabe, Silvestre Varela sabe, até Fernando já sabe. Todos sabem como manipular a fealdade, a robotização sem sentido, o excesso de planeamento e a organização maquinal.

André Villas-Boas trouxe ideias a esta equipa. Deu-lhe as asas da liberdade, fê-la voar e buscar patamares de excelência. Isso é perceptível no pormenor mais simples. Sim, este Porto é mesquinho, não suporta uma peça fora do sítio, ou um triunfo de sabor agridoce.

É o cúmulo do bom gosto, insistimos. Um agente talhado para missões arriscadas, sempre impecavelmente composto, como o mais famoso dos agentes secretos da Sétima Arte. «Shaken, not stirred, por favor.»

Os Destaques: Otamendi e um grande Fernando

Sem venda não há escuridão que resista

Ao olhar para este Porto, apetece dizer que agora joga sem venda. Trocou o instinto de sobrevivência pela certeza de saber viver. Os horizontes estão alargados, devidamente definidos, longe do escuro e da incerteza.

Mesmo diante de um Olhanense competente, sabedor dos ofícios da competição e que nunca perdera neste campeonato, o Porto mostrou ser uma equipa diletante. Tem prazer em possuir a bola, em trocá-la de trás para a frente, quase sempre numa progressão enfeitiçada por ares de improviso.

Foram dois golos, podiam ter sido mais, tal a panóplia de bolas perigosas que rondaram a baliza de Moretto.

O fim de uma história simples

Houve tempo para ver a melhoria de Fucile, para confirmar a tal estreia segura de Otamendi, a evolução tremenda de Fernando e a cumplicidade entre Belluschi e Moutinho. Houve também um Hulk endiabrado e poupado a horas extras, um Falcao aplicado e a precisar de mais golos, e um Varela em grande forma.

Dos algarvios pode dizer-se que têm matéria-prima mais do que suficiente para uma época tranquila, no embalo do meio da tabela. Perderam bem, sem grande alarido, mas mostraram segurança e qualidade nada despicienda.

Esta é, enfim, uma história simples sobre o triunfo do bom gosto. Simples, como são sempre as mais belas histórias.

O prazer de ganhar segundo o manual do bom gosto
Por
Pedro Jorge da Cunha

in Maisfutebol

+ Hulk, Fernando, Moutinho, Míudos das várias escolas do Dragon Force no Topo Norte
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Um comentário:

ultrafcporto disse...

Caro portista,
Uma excelente 1ª parte, na 2ª parte foi para gerir o resultado. Valeu por a estreia do central Otamendi e não poderia ser da melhor maneira, marcando um golo.

Cumprimentos,
ultrafcporto